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Discursos/Pronunciamentos


Discurso pronunciado pelo Dr. José Mendonça, em nome do povo de Uberaba, na inauguração do monumento ao Governador Benedito Valadares, na Praça Rui Barbosa, em 11 de maio de 1941.

"Pediu-me o povo desta terra que eu aqui viesse, neste momento, para dizer-lhe, Exmo. Dr. Governador Benedito Valadares, que ele o reconhece e proclama como o maior benfeitor de Uberaba. E, nesta expressão, não vai qualquer lisonja. Os uberabenses, acostumados a uma luta árdua e penosa, para construir aqui, nestes longes da Pátria, uma civilização digna de Minas e do Brasil, acostumados a contar com as suas próprias forças e a vencer pelo seu próprio esforço e pelo seu próprio trabalho os obstáculos que se antepõem ao seu progresso e ao seu desenvolvimento, não têm o hábito e nem o espírito dos elogios e dos louvores convencionais. Mas, pelas suas próprias condições de existência em mais de um século de sacrifícios e de ação persistente para a conquista de sua cultura, de sua riqueza e de seu bem estar, criou-se um profundo, seguro e irreprimível sentimento de justiça.
Por isso, ninguém melhor do que o uberabense sente e compreende o dever e a alegria de fazer justiça. E se, hoje, nesta hora luminosa, numa espontaneidade de entusiasmo que está vibrando em todas as suas almas, vem dizer-lhe que o considera o maior benfeitor de Uberaba e vem manifestar-lhe o seu apreço, a sua estima, o seu reconhecimento e a sua admiração, é porque V. Exa. tem, de verdade, correspondido às suas aspirações e aos seus ideais e lhe tem feito os mais relevantes e assinalados benefícios. Os filhos de Uberaba, em décadas seguidas de pelejas ásperas e de indomável tenacidade, conseguiram formar, nesta parte central do Brasil, um núcleo de civilização que bem exprime a capacidade de trabalho, a energia criadora e os idealismos da gente brasileira.
À custa de sacrifícios econômicos mais árduos, enfrentando as mais duras dificuldades, sofrendo o escárnio e o ridículo, foram até as Índias, para a escolha e compra de bovinos com os quais plasmou esse rebanho magnífico que está conquistando todos os mercados nacionais e estrangeiros e que já é uma das fontes mais robustas da economia nacional; abriram lavouras fartas, em esplêndida policultura, transbordantes de suas próprias necessidades, abastecendo outras e numerosas zonas do país; rasgaram estradas pelos sertões do oeste, para a expansão do seu comércio poderoso, irradiando para toda parte o calor de sua própria vida; e construíram cerca de 5.000 casas, asilos, sanatórios, orfanatos, hospitais, casa da criança, dezenas de escolas primárias, ginásios, escolas normais, magníficas igrejas de arquiteturas empolgantes, bancos que difundem os benefícios do crédito, jardins encantadores, e uma imprensa que se coloca à altura das melhores do país.
Apesar disso, Exmo. Sr. Governador, Uberaba não conseguia os fatores essenciais para integrar-se definitivamente no dinamismo da vida moderna, para progredir ainda mais, para elevar-se aos gloriosos altiplanos do seu destino.
Não tínhamos energia elétrica suficiente, nem água encanada, nem saneamento. Anos e anos seguidos, num clamor angustioso, pediam os uberabenses que lhes fossem dados esses fatores de evolução, de riqueza e de salvaguarda da saúde pública. Os seus brados aflitivos não encontravam eco, como se fossem proferidos na imensidade de um deserto. Dizia-se e demonstrava-se que era um verdadeiro crime deixar ao abandono, sem qualquer assistência, uma população como a de Uberaba, capaz de criar para Minas Gerais a maior e mais bela metrópole do interior do Brasil.
Nenhum argumento, nem o de salvação pública, conseguia despertar o indiferentismo dos responsáveis. Uberaba continuava esquecida. E tornou-se precário o estado sanitário da cidade; o progresso paralisou, pela asfixia das forças criadoras. A situação era aflitiva, de verdadeira intranqüilidade.
Foi quando V. Exa., Exmo. Sr. Governador, assumiu, para nossa felicidade, o governo de Minas Gerais. Encarando o espírito do Estado Novo, que o preclaro e eminente Presidente Getúlio Vargas implantou sob o céu da América, em hora de desesperos e de desesperanças, para a nacionalização e redenção do Brasil, V. Exa. veio realizar, em Minas, o trabalho bendito da reconstrução. Pôs termo à anarquia intelectual, eliminando o entrechoque de idéias e princípios nocivos, renovando todos os espíritos e todos os corações em torno dos mesmos ideais de trabalho e de brasilidade; recompôs as forças dispersas do Estado, coordenando-as e dirigindo-as no sentido das atividades benéficas e fecundas; iniciou uma era de realizações práticas, de empreendimentos que significam maior conforto, maior bem estar, maiores facilidades para o trabalho, mais beleza e mais alegria para a vida. Minas Gerais voltou a ser aquela 'brilhante estrela do sul' de que falava Francisco Otaviano. E V. Exa. ouviu os clamores de Uberaba. Compreendeu, desde logo, as necessidades deste povo. Viu que não era possível deixar a economia, a cultura e a civilização de Minas privadas de uma cooperação cada vez maior e mais eficiente das possibilidades materiais e intelectuais de Uberaba.
Em Minas Gerais, sob o governo de V. Exa. não se deixa sem amparo e sem os necessários estímulos, nenhuma força benéfica, nenhuma energia fecunda. E V. Exa. veio a Uberaba.
Aqui, teve a compreensão nítida, exata, perfeita das nossas realizações, dos nossos cometimentos em cem anos de esforços para a conquista da terra, para o desbravamento dos sertões, para trazer a civilização ao centro do país, e auscultou, bem de perto, as nossas aspirações, os nossos anseios de progresso, os nossos ideais de uma grandeza sempre crescente. Sentiu e compreendeu toda a potencialidade do homem, toda a riqueza da terra, todas as vantagens da situação geográfica de Uberaba. E, firmemente, nos prometeu energia elétrica e o serviço de abastecimento de água. E, para orientação e transformação da cidade, nesse período decisivo e culminante de sua história, confirmou, no governo do município, o sr. Dr. Wadhy Nassif, prefeito digno, probo e operoso, que é todo amor e dedicação por esta terra e ao qual o município já deve inúmeros e magníficos benefícios. O povo, num ímpeto de alegria e de entusiasmo, aclamou as palavras de V. Exa. e ficou à espera. Não, não era uma simples promessa, que V. Exa. não sabe iludir os seus patrícios.
O sr. Governador Benedito Valadares é dos que sabem cumprir, resolutamente, os seus compromissos, custe o que custar. Pouco tempo depois como num deslumbramento, a população assistiu ao início dos trabalhos. Uma grande esperança repontou na alma uberabense. Uberaba ressurgia. E todos sorriam, numa íntima satisfação, para a vida, para a terra, para o futuro. Os trabalhos prosseguiram, decididamente, sem solução de continuidade. A cachoeira Pai Joaquim transformou-se, em breve, na majestosa 'Usina Governador Valadares', e os fios se distenderam até a cidade, na transmissão de energia elétrica suficiente para as nossas necessidades atuais e para atender às exigências de um largo período de desenvolvimento. Junto ao rio Uberaba, levantou-se a empresa magnífica, para o abastecimento de água à população, edificaram-se, rapidamente, os reservatórios, as casas de máquinas e a estação de tratamento. Os canos condutores alinharam-se por todas as ruas, ligaram-se em todas as residências.
E, hoje, mercê do Exmo. Sr Governador Benedito Valadares, temos energia elétrica em abundância e água com fartura. E a cidade saneou-se, pois, a Prefeitura pôde construir grande parte de sua rede de esgotos. E veio o progresso, imediatamente, empolgante e admirável. As edificações surgiram às centenas, lindas e modernas, em todas as ruas; erguem-se, grandiosos, os primeiros arranha-céus do Brasil Central; numerosos adventícios chegam a Uberaba, vindos de todos os pontos do País, trazendo-nos a cooperação do seu capital e do seu trabalho, desenvolvem-se, como nunca, num ritmo sempre acelerado, a agricultura, a pecuária, o comércio e a indústria. Uberaba redimiu-se, amanhecendo para uma vida nova. Aqui será, sem dúvida, e em pouco tempo, a grande metrópole do coração do Brasil.
E este povo, Exmo. Sr. Governador Benedito Valadares, quis demonstrar-lhe de modo inequívoco e duradouro, a sua estima e sua gratidão. Pensou, logo, em erguer-lhe, neste mesmo lugar, uma estátua que fosse a expressão do seu apreço e do seu reconhecimento. V. Exa., entretanto, ponderou que preferiria um monumento simbólico, comemorativo da inauguração dos serviços de energia elétrica e de água. Mas, nesse monumento, que a cidade, nesta hora, lhe oferece, faz o povo questão de colocar em medalhão, a efígie do seu grande benfeitor. Toda Uberaba concorreu, com alegria e espontaneidade, para este preito de gratidão. Desde os mais poderosos até os mais humildes, uns concorrendo com dádivas elevadas e outros menos, com os tostões da pobreza, todos fizeram questão de trazer o seu concurso para esta obra de arte. Nela se sintetizam os sentimentos de afeto e de estima de Uberaba inteira para com V. Exa. Horácio, no primeiro verso de sua última ode, exclamou: 'Ergui um monumento mais duradouro do que o bronze'. Este monumento, Exmo. Sr. Governador Valadares, concretiza-se no bronze e no granito. Entretanto, mais perene e duradouro do que ele, há de ser, pelos tempos afora, no coração de Uberaba o nome de V. Exa., Sr. Governador Benedito Valadares, para o culto imortal de gratidão."

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