Home > A Obra > Discursos/Pronunciamentos

Discursos/Pronunciamentos


Homenagem ao Revmo. Cônego Eduardo Antonio dos Santos. Discurso proferido por José Mendonça, em nome dos amigos, admiradores e da população católica de Uberaba no ato de manifestação de apreço e como despedida, realizado no dia 06 de janeiro de 1938.

"Exmo. e Revmo. Sr. D. Frei Luiz Maria de Sant'Anna, preclaro Bispo de Uberaba,
Revmo. Clero Regular e Secular,
Minhas Senhoras,
Meus Senhores,
Revmo. Cônego Eduardo dos Santos

Só compreendo a distinção que me foi conferida para falar neste momento, pelo motivo de ter Uberaba dentro do coração.
E quiseram os promotores desta solenidade que se erguesse, aqui, nesta hora, a própria voz de Uberaba.
Tenho certeza de que, como as diversas cores do arco-íris, através de um prisma, compõem um feixe de luz puríssima e clara, falam pela minha palavra, nessa hora, todos os habitantes de Uberaba, Revmo. Cônego Eduardo, exprimindo-vos uníssonos, os mesmos sentimentos de estima, de admiração e de reconhecimento, dizendo todos a sua mágoa e o seu desconsolo, vendo que vos agastais do nosso convívio.
E bem se justificam essas emoções que vibram em nossas almas e que vimos, aqui traduzir.
Na verdade, quem sois, para todos nós, Revmo. Cônego Eduardo?
Sois o homem 'no qual borbotam os melhores sentimentos de altruísmo, de abnegação e de bondade; o homem para o qual a escola é um templo e o civismo uma bandeira; o homem que vive lutando, no púlpito e na cátedra, para que a justiça seja a garantia do indivíduo e da sociedade, a indefectível protetora de todos os direitos, a redentora de todos os infortúnios; o homem que se bate para que a lei seja sempre respeitada, a autoridade amada, o progresso sempre crescente, a vida sempre aprazível, Deus sempre adorado e o destino encarado sem pavor; o homem que, combatendo em nome da cruz, anda pela nossa pátria, com os Evangelhos nos lábios e a Caridade nas mãos, confortando os desalentados, pregando as ordenações da religião do amor, da compaixão e da clemência, procurando tornar os poderosos menos duros e os fracos menos infelizes e menos desesperados' (Felício Terra 'Contos e Crônicas'); o homem que, encolhido em sua modéstia, é um sábio que percorre os vários reinos do espírito, recolhendo e distribuindo à mocidade brasileira os frutos da árvore da ciência; o homem que ouve sempre e guarda no coração as vozes da Pátria, vozes que o impregnam de estímulo generoso e santo; o homem que, na frase de Coelho Netto, dá à gente moça da nossa pátria as instruções de civismo que ela carece, a começar pelo amor à terra materna, o zelo pela sua honra, a veneração pelo seu passado, o prestígio pelo seu presente, a confiança no seu futuro.
— Mais do que isso, porém, Revmo. Cônego Eduardo, sois, superiormente, o sacerdote e o sacerdote brasileiro.
Sois o Padre que, como já fez notar alguém, recebe a criatura humana nos primeiros dias de sua existência terrena e pelo batismo a purifica e integra na comunhão cristã; o Padre que, no decurso da nossa vida, está sempre presente aos atos de maior relevo, como na constituição da família; o Padre que, afinal, na hora da morte, santifica as almas pelos sacramentos, fazendo-as dignas da felicidade eterna, e que acompanha o próprio corpo até a sepultura.
Sois o Padre que, no seio da sociedade, agindo no sentido do bem e da verdade, impede que a humanidade se transforme num aglomerado de bárbaros, assegura a superioridade da virtude, promove a fraternidade, ameniza os sentimentos e, pregando o direito à vida e aos direitos dos nossos semelhantes, alicerça as bases da própria justiça.
E vós, Revmo. Cônego Eduardo, tendes sido o protótipo, a encarnação mesma do sacerdócio cristão.
O sacerdócio, como vós o tendes exercido, Revmo. Cônego Eduardo, é a água que satisfaz toda a sede, o pão que sacia toda a fome, o manto que cobre e envolve toda a nudez, a luz que aclara toda a escuridão; é a força que auxilia todas as fadigas e todas as debilidade; é uma riqueza infinita que está sempre à disposição de todos, mesmo dos mais pobres; é o bálsamo que cicatriza todas as feridas e suaviza todas as dores; é a aurora cheia de sons e de cores para os que se debatem nas trevas da ignorância; é a redenção para os sofredores; é a conformidade para os desesperados; é a esperança para os desiludidos; é o encorajamento para os tíbios e os desanimados; é o entusiasmo para os indiferentes; é a chuva do céu que cai sobre a sociedade endurecida e esterilizada pelos erros, pelos vícios, pelos crimes, pela impiedade.
— Ser sacerdote, como tendes sido, Revmo. Cônego Eduardo, é erguer os que tombam; consolar os que padecem; instruir os que não sabem; amparar os que vacilam; animar os que receiam; fazer aflorar um sorriso nos lábios tristes; e perdoar, perdoar sempre, nunca deixar de perdoar os erros e os desvios desta pobre humanidade.
Ser sacerdote, como tendes sido, Revmo. Cônego Eduardo, é fazer com que o sentimento de justiça penetre e viva no fundo dos corações; é lutar para que a paz se perpetue; é impedir que o homem se transforme em lobo do homem, para que a concórdia e o amor sejam o motivo e o fundamento dos nossos atos; é premiar a virtude; é enaltecer os humildes; é assegurar e defender os fundamentos e a existência da família cristã; é pugnar para que o reino de Deus, neste mundo, cada vez mais se dilate e mais impere sobre as almas.
Na sociedade de Uberaba, Revmo. Cônego Eduardo, o vosso sacerdócio tem sido esse: — a luz que mais se espalha, o bálsamo que mais consola, o abrigo que mais agasalha, o servidor que, quanto mais serve, ainda mais quer servir.
— E além do sacerdote, personificando tão sublimemente o apostolado de Cristo, tendes sido, Revmo. Cônego Eduardo, um desses tão caros sacerdotes brasileiros, um legítimo representante do clero nacional, desse clero afável, doce, bom e generoso, todo ele sabido do seio das famílias do Brasil; que tão bem compreende os sentimentos, as virtudes, os vícios e os defeitos do nosso povo; que procura manter e acrisolar em nossas almas os predicados, os característicos, os atributos que herdamos dos nossos antepassados; que cultua, como todos nós as nossas tradições; que está sempre ao lado da pátria nas suas horas de alegria ou de dor; que vibra e palpita em todos os nossos anseios de patriotismo; que tem a alma irmã das almas de todos os brasileiros; que tem enchido de glórias as páginas da nossa história; clero ao qual devemos, entre incontáveis benefícios de toda sorte, um esforço eficiente e decisivo para a própria manutenção da soberania e da unidade nacionais.
— Mas, não são apenas essas as manifestações do vosso idealismo e da vossa atividade, Revmo. Cônego Eduardo.
Sois, também, um formador de outros sacerdotes brasileiros.
Assim, a vossa personalidade se desdobra no espaço e no tempo, através dos moços que neste Seminário se preparam; multiplicando-se, a toda hora e em todos os pontos desta vasta região, as irradiações das vossas virtudes, dos vossos méritos, dos vossos serviços, das vossas energias.
Um dos nossos grandes males está, evidentemente, na falta de sacerdotes. Mal para a religião em si mesma considerada e mal para as populações.
Numa das suas brilhantes Cartas Pastorais, em março de 1933, por ocasião da reabertura do Seminário do Pará, S. Exª. Revma. D. Antonio de Almeida Lustosa, Arcebispo de Belém, denunciou e classificou as funestas consequências da falta de sacerdotes. Muitas Ordens religiosas, por ausência de noviciado, decaíram no Brasil.
Quanto ao clero regular, essa falta determina que as funções religiosas não sejam bem desempenhadas; que não sejam obedecidas a disciplina e a liturgia; que não haja troca de ideias, conferências, correções fraternas, sadia emulação, espírito de coleguismo, palestras espirituais, convívio intelectual, forçando o rebaixamento do nível cultural, fazendo com que os padres, muitas vezes, sejam absorvidos pelo determinismo, nem sempre bom, do meio ambiente.
Se a própria Igreja assim padece, ainda mais sofrem as populações com a falta de sacerdotes.
Com poucos padres espalhados pelo território imenso, as paróquias abandonadas, centenas de criancinhas ficam sem batismo e muitas delas morrem sem esse ato santificador; — as famílias se organizam sem as bênçãos de Deus, multiplicando-se os concubinatos; — não há instrução religiosa e o vício e a impiedade se expandem, largamente, criando-se corações duros, almas rebeldes, espíritos que se fecham para as verdades eternas e para as luzes da civilização cristã; — os Tabernáculos permanecem vazios, não há o sol Divino da eucaristia, não há vida sobrenatural e as próprias criancinhas deixam de receber a primeira comunhão; — na hora da morte não há padre para a absolvição e para a extrema-unção, e o pecador arrependido não encontra um sacerdote que lhe ouça os brados de remorso e de perdão; — o culto se torna profano, organizando o próprio povo cerimônias religiosas, em que se misturam a superstição, o paganismo, o fetichismo; propaga-se o indiferentismo, a infidelidade avança e a própria vida moral declina desoladoramente. Tudo isso sentiu e compreendeu o Exmo. e Revmo. Senhor Dom Antônio de Almeida Lustosa quando, Bispo desta Diocese, abriu o Seminário de Uberaba.
Tudo isso tem compreendido o Exmo. e Revmo. Senhor Dom Frei Luiz Maria de Sant'Anna, nosso amado Pastor, mantendo e aprimorando o Seminário com todo o fervor do seu zelo apostólico.
E quem tem sido desde anos, o Reitor desse Seminário; o Administrador dessa Casa; o orientador das suas atividades, a alma cheia de ternura e de amor que recebe e agasalha os jovens que para aqui se dirigem; o espírito de luz que aclara e dirige as inteligências dos futuros ministros de Deus; o caráter retilíneo e imaculado que forma os caracteres dos que hão de ser os Padres do Brasil?
Sois vós, Revmo. Cônego Eduardo.
Quantos benefícios, nesse vosso labor humilde, tendes feito à religião, à pátria, e a cada um de nós em particular!
Quantas bênçãos de Deus, por vosso intermédio, têm descido sobre o nosso povo!
Cada Padre que daqui tem saído, a pregar a palavra de Deus, a perdoar, a difundir a vida espiritual, a revigorar o patriotismo, leva, na sua devoção, no seu apostolado, na sua caridade, no seu amor, no seu civismo, muito da vossa devoção, do vosso apostolado, da vossa caridade, do vosso amor, do vosso civismo, Revmo. Cônego Eduardo.
Por tudo isso, vós viveis na alma e no coração do nosso povo.
E, hoje, quando (ai de nós!) vós vos afastais da nossa cidade, quando ficamos privados da vossa presença e da vossa palavra, permiti que, em nome do povo amargurado, em nome do povo que se deplora pela vossa partida, e nome de Uberaba que se sente e se confessa menor porque vós não permanecereis com ela, permiti que eu vos diga, repetindo umas frases de Felício Terra:
— 'Sois absolutamente bom e absolutamente humilde; e tendes a rara felicidade de conservar imaculados esses atributos da vossa perfeição, sendo, como igualmente sois, absolutamente pobre.
Para o vosso espírito o sacerdócio é um apostolado.
Tendes no coração o calor do céu e nos pés a grilheta terrena; mas, a vossa alma é tão leve que subis no espaço e pairais entre o firmamento e a miséria, derramando benefícios para baixo e mandando cânticos para cima.
Andais na terra e não vos toca a impureza; fitais o céu com a vossa fé e não sentis o pavor do desconhecido.
Realizais e escopo da extrema nobreza anímica, amando o próximo mais do que a vós mesmo.
Em seres como o vosso, cristaliza-se a dignidade da espécie'.
— Revmo. Cônego Eduardo.
Conta-se, na vida do Padre Anchieta, que, num dia de muito calor e de muito sol, quando toda a paisagem era como uma chapa incandescente; as rochas rebrilhando; paradas as folhagens das árvores; os animais e os pássaros recolhidos nas selvas; tudo imóvel e silencioso, sem uma viração ou aragem, — conta-se que, nesse dia e nessa hora, estava o Santo do Brasil em seu abrigo humilde, doente, fatigado, exausto de lutas e trabalhos.
Surgiu-lhe, então, vindo de uma das veredas que se prolongavam, tortuosas, pelos campos, um mensageiro ofegante e suado.
Com a voz entrecortada pelo cansaço da caminhada, disse ao Padre Anchieta que, longe dali, uma certa pessoa agonizava, necessitava dos Santos Sacramentos e pedia ao Padre que a fosse assistir e socorrer. Anchieta veio para fora e lançou um olhar ao derredor.
Era intensa a soalheira.
A atmosfera abafava e sufocava.
E os raios do sol faziam doer os olhos, causticavam a pele, faziam estalar a cabeça.
O Padre esteve para recusar-se ao chamado.
Sentia-se fraco e abatido.
Não suportaria aquele calor.
Mas, no mesmo instante, o seu espírito reagiu.
Ele iria porque tinha um dever a cumprir, tinha uma alma a consolar e a absolver.
Tomou do seu cajado e, resolutamente, acompanhando o mensageiro, partiu pelos caminhos ardentes, sob o dia em fogo.
Apelando para todas as suas energias, prosseguia e, pouco a pouco, ia vencendo a distância.
Mas, a certo ponto, sentiu que as forças lhe faltarem.
Cambaleava.
Sentia que ia cair, talvez fulminado pela insolação.
O que lhe importava a morte?
Ele estava sempre pronto a comparecer ante o Tribunal de Deus.
Mas, e aquela pessoa que agonizava?
E aquele pecador que precisava de perdão?
Morreria sem que ele chegasse a salvá-lo?
Anchieta sentiu uma angústia infinita no coração.
Ele precisava caminhar, precisava chegar à casa do moribundo.
Mas, as suas forças iam sumindo, sumindo ...
Anchieta, então, volveu os olhos súplices para o céu. Pediu a Deus que o ajudasse.
E, imediatamente (o inefável milagre!) de todos os pontos dos horizontes, das selvas e dos campos, começaram a surgir pássaros e avezinhas. Vinham céleres, rápidas como flechas, vinham às centenas, aos milhares, chilreando, tatalando as asas.
E reuniram-se sobre a cabeça do santo e de tal forma uns aos outros se chegaram que formaram um surpreendente pálio suspenso, um pálio móvel no espaço, um pálio maravilhoso que não deixava passar uma réstia de sol, um pálio que cantava, um pálio incomparável que, adejando, no ruflar de miríades de asas, produzia uma sombra, uma aragem, um cântico tão suave como uma carícia.
Assim, resguardado por esse pálio de pássaros e de avezinhas, Anchieta, com as forças refeitas, caminhou até o lugar do seu destino.
— Revmo. Cônego Eduardo, todos nós sabemos que vós vos sentis fatigado pelos trabalhos que aqui desenvolveis.
Ides partir para uma paróquia que pode não ser de muito repouso e de muita tranquilidade.
Tendes um dever a cumprir, uma missão a desempenhar.
Ides sustentar (quem sabe?) lutas ainda mais duras do que as que aqui tivestes.
Deus pode querer provar, ainda mais, a vossa fidelidade e a vossa dedicação.
Ides partir.
Mas, Revmo. Cônego Eduardo, se, na inclemência de novas refregas, na aspereza das novas caminhadas, sentirdes, algum dia, que o meio vos é hostil ou que as forças se vos vão minguando, volvei os olhos para Uberaba, voltai para Uberaba, que, imediatamente, à semelhança dos pássaros e das aves do padre Anchieta, em todos os corações uberabenses, numa revoada de alegrias, vibrarão os melhores, os mais verdadeiros, os mais sinceros, os mais puros sentimentos de gratidão, de amizade, de admiração, de ternura e de amor para vos receber, para vos envolver, num manto de afeto e de carinho e, assim, cantando, cobrindo de bênçãos a vossa fonte, exaltar na vossa glória e na beleza da vossa vida, a glória e a beleza eternas de Deus, de quem sois um dos perfeitos Ministros."

Discurso publicado no Jornal "Correio Catholico". Uberaba (MG), 15 de janeiro de 1938.

Voltar


© Copyright 2004/2022 - José Mendonça. Todos os direitos reservados.