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Discursos/Pronunciamentos


Discurso pronunciado em 03/05/1954, na inauguração da Escola de Economia Doméstica, em Uberaba (MG).

" 'A família, diz Amaral Fontoura, é a instituição básica da sociedade. É o grupo social elementar, e, ao mesmo tempo, o primitivo, aquele que a História registra primeiro.
Sua importância social é enorme. É no grupo da família que o homem nasce, cresce, educa-se. A base de educação, de cultura, de sentimento de cada um, é a que a sua família lhe proporcionou.
Pela família é que o homem penetra na sociedade. É ela quem 'socializa' o homem.'
E, como escreveu Alceu Amoroso Lima:
'A família é o primeiro, o mais importante, o mais fundamental de todos esses grupos que constituem o corpo real da sociedade e amortecem consideravalmente o choque entre o indivíduo e o Estado.
A família, portanto, na sociologia integral e na estrutura social cristã não é uma aproximação do acaso, não é uma conjunção meramente biológica. Ela constitui uma realidade social básica.
É o primeiro círculo de expansão do homem na sociedade, é o grupo em que ele recebe a vida e a educação.
Em suma: a família, é o esteio da sociedade. E todas as vezes que se enfraquece a organização da família, começa a decadência da sociedade.' 'E, nota ainda Amaral Fontoura, país de formação cristã, o Brasil sempre teve a família como um dos seus mais poderosos esteios.
Percorrendo a história pátria, sente-se a cada momento a organização, a força, o prestígio que teve a família e quanto essa instituição colaborou pela segurança e pelo prestígio do país.
Na época colonial e durante toda a monarquia, a economia nacional se baseou exclusivamente nos grandes fazendeiros, de família patriarcal, unida e disciplinada em torno do chefe.
Mas, atualmente, com o desenvolvimento das cidades e a industrialização crescente da economia nacional, praticamente desapareceu aquele tipo de família, em nossos maiores centros.
Em conseqüência da revolução industrial do século XIX, das duas grandes guerras que convulsionaram o mundo, de diversos fatores morais e econômicos, a família vem sendo abalada em seus próprios alicerces.
Nas guerras, milhões de homens foram convocados para os campos de batalha. E as mulheres os substituíram em todas as espécies de empregos. Milhões de homens não voltaram. E as mulheres, em grande número, continuaram a trabalhar nas fábricas e nos escritórios.
A vida, pelas novas condições econômicas, tornou-se mais áspera e mais difícil.
A mulher viu-se obrigada a lutar, também pela existência e a contribuir com seu salário para a manutenção do lar. O marido já não ganha o suficiente.
Compelida a esposa, pelo imperativo econômico, a passar o dia fora de casa, no trabalho, os filhos são entregues às creches ou à escola. E, como resultado da vida difícil, nervosa, violenta e apressada do Século XX, temos o 'sacrossanto lar' transformado, não raro, em mero local de dormida, e, às vezes, de refeições daqueles que constituíram, em tempos idos, a família.'
'A vida moderna, disse Maria Eugênia Celso, fez surgir uma nova face da entidade feminina, desconhecida dos séculos passados: a mulher que trabalha fora do lar.
A mulher tornou-se colega e competidora do homem, nas lides igualitárias do trabalho.
Tão considerável se tornou esse surto que, só nos Estados Unidos, as recentes estatísticas oficiais demonstram que 17.300.000 mulheres estão trabalhando fora de casa, e isto sem contar com o numeroso contingente das que trabalham na lavoura.
Ainda, nos Estados Unidos, mais da metade das mulheres que trabalham fora de casa são casadas.'
O trabalho das mulheres não é e nem pode ser condenado.
Ao contrário, deve sempre receber um encorajamento.
Se as mulheres trabalham, porque precisam; se estudam e seguem uma carreira que sua inteligência lhes pede, só merecem aplausos e louvores.
Mas, o que é preciso evitar-se, o mais possível, é o trabalho das mulheres fora do lar, porque ele concorre e está concorrendo para a dissolução e a decadência da família, do lar.
O ilustre dr. Abgar Renault, que perfeitamente conhece os Estados Unidos, disse, em conferência pronunciada na Escola Normal de Uberaba, que, na América do Norte, o 'lar', como nós o concebemos, como ainda o temos, está desaparecendo.
Porque o trabalho da mulher, fora de casa, afasta a mulher do posto que naturalmente lhe compete na engrenagem social: a direção do lar.
Pondera Amaral Fontoura: Não há organização perfeita, onde não há divisão de trabalho e especialização de funções.
E a função da mulher é justamente aquela.
Desempenhando ela as funções que competem ao homem, quem irá ocupar o seu lugar na direção do lar?
Deixa-lo acéfalo? Entregá-lo nas mãos de uma empregada? Quem iria cuidar da educação dos filhos, enquanto a mãe está ausente? Uma creche ou uma escola materna? Será que ambas tratam a criança com o desvelo materno? A família é a célula da sociedade. Tanto mais estável e forte será a sociedade, quanto mais unida e homogênea for a família.
E a família ideal compreende a diferenciação de funções, como acontece em todo organismo bem constituído.
A diferenciação de funções na família é precisamente isto: o trabalho do homem 'fora de casa' e o trabalho da mulher 'dentro de casa'.
O trabalho da mulher no lar não é menos importante e nem menos nobre do que o do homem fora do lar.
Não pode haver paralelo entre o lar de uma esposa que o administra, soberanamente, e de outra que passa o dia inteiro longe dele.
Além disse, trabalhando fora de casa, encontrando-se raramente com o marido e com os filhos, a mulher corre riscos de perder o seu recato natural, de ingressar nos vícios sociais do fumo, da bebida e outros mais, fazendo com que se desgarre mais facilmente.
Por tudo isso, todo esforço que re realiza no sentido de conservar-se a mulher no lar, merece o apoio, a solidariedade, os aplausos de todos os homens de boa vontade, de todos os patriotas sinceros.
Nos tempos atuais, as condições econômicas influem, decisivamente, sobre a estabilidade da família.
Se o homem, trabalhando fora de casa e a mulher, trabalhando no lar, podem prover e administrar sua família, esta há de manter-se sempre coesa e feliz.
Há de ser, para os filhos, a mais nobre escola de formação de moral, de disciplina, de formação do espírito de renúncia, de solidariedade, de labor e de sacrifício, de dignificação da própria vida.
Só uma família assim constituída pode infundir nos filhos puros ideais e elevadas aspirações.
Se o contrário se verifica, a família tende a dispersar-se, a perder os seus laços de coesão.
As 'Escolas de Economia Doméstica', como esta que hoje se instala em Uberaba, visam justamente a preparação da mulher, notadamente a da zona rural, para o trabalho no lar.
Lê-se no preâmbulo do programa do seu centro de treinamento:
'O ensino de Economia Doméstica tem por finalidade preparar as moças e senhoras da vida rural para as atividades da vida prática, visando, principalmente, orientá-las e fornecer-lhes noções técnicas sobre organização, controle e direção do lar, a fim de que se tornem aptas para dar ao ambiente familiar as devidas condições de conforto, higiene e harmonia, capazes de promover o aconchego e o bem estar de todos os membros da família, tornando-lhes a vida mais agradável e mais digna de ser vivida.
Assim, a orientadora do Centro de Treinamento de Economia Doméstica deve dedicar-se tanto à aprendizagem técnica quanto à formação moral das alunas, fazendo-as compreender a sua imensa responsabilidade como colaboradora do homem e mantenedora do equilíbrio e felicidade da vida doméstica.
Ao lado do objetivo principal, que é a formação de boas donas de casa, o Centro de Treinamento de Economia Doméstica, através das diferentes aprendizagens técnicas, proporcionará às alunas possibilidades de prover honestamente a sua subsistência, caso necessitem exercer uma atividade lucrativa, desenvolvendo-lhe, ao mesmo tempo, o espírito de cooperação social.'
A Escola de Economia Doméstica, que se abre em Uberaba, é a segunda que no Brasil se instala.
Compreende um 'Centro de Treinamento', que já começa a funcionar, com numerosas alunas e a Escola de Formação do Magistério de Economia Doméstica Rural, a criar-se no próximo ano.
Trata-se, assim, de uma obra que honra, exalta e dignifica a nossa cultura e a nossa civilização.
O povo uberabense, que nestes rincões centrais do país, pelo seu bendito idealismo e pela sua incomparável capacidade de esforço e de trabalho, criou uma civilização de que todo o Brasil se ufana, sente neste instante, vibrar todo o seu entusiasmo patriótico, todo o seu infinito amor à grande pátria, agradecendo aos fundadores desta Escola o benefício magnífico que lhe trouxeram e prometendo-lhes todo o seu apoio, todo o seu amparo, toda a sua dedicação no sentido de dar-se à Escola a expansão e o prestígio que merece e que há de ter.
Uberaba saberá amar a sua Escola, saberá trazê-la no coração e considerá-la um dos mais altos, dos mais nobres, dos mais luminosos padrões de seu espírito e de sua cultura.
Agradece à Exma. Senhora D. Maria José Pessoa Maciel, a idealizadora das Escolas de Economia em todo o país, e diretora do estabelecimento do Rio de Janeiro, a honra extraordinária de sua escolha para a fundação da segunda Escola que se instala no Brasil.
A Exma. Senhora Maria José Pessoa Maciel, que já se inscreve no rol glorioso das grandes mulheres do Brasil, terá, no coração de Uberaba, um santuário para a veneração do seu nome, de suas excelsas virtudes, de seu sublime idealismo.
Agradece ao Exmo. Sr. Dr. João Cleofas, digníssimo Ministro da Agricultura, um dos propulsores da recuperação dos nossos homens do campo, perfeito conhecedor das necessidades e dos problemas do Brasil, um dos vultos mais eminentes do Governo da República, a boa vontade que demonstrou, o esforço que realizou para que a Escola se fundasse nesta cidade.
Agradece ao seu grande e querido amigo Revmo. Padre Agostinho Zago a magnífica e decisiva ação que desenvolveu pela instalação deste estabelecimento, doando, generosamente, a instituição, por intermédio do Ministério da Agricultura, deste excelente prédio, onde ficará otimamente instalada.
Além dessa doação, o Revmo. Padre Agostinho Zago desempenhou, pelo seu trabalho pertinaz, constante, vencendo vários obstáculos, uma atuação decisiva pela criação da Escola.
É, hoje, sem favor, um dos grandes benfeitores de nossa terra. Agradece, comovidamente, ao Exmo. Sr. Dr. Ewald Brasil e sua Exma. Senhora D. Aretusa Brasil, à Exma. Professora Senhorita Esperança Ribeiro Borges, ao Exmo. Deputado Licurgo Leite, ao Exmo. Dr. Antonio Próspero, digníssimo Prefeito do Município e sua senhora D. Quita Próspero, infatigáveis batalhadores, vitoriosos realizadores da campanha pela criação deste estabelecimento.
Viverão todos, na perenidade do amor de nossa gente.
As Escolas de Economia Doméstica, visando à conservação da mulher no lar, são uma benção de Deus sobre a fronte daquelas que, sendo a fonte sacrossanta da vida, trazem em si a eternidade do amor, da beleza e da bondade.
E, como uma verdadeira benção de Deus que a família uberabense, que a família brasileira recebe esta Escola."

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