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Homenagens Póstumas


Discurso pronunciado pelo Desembargador Lauro Fontoura na homenagem prestada pela Academia de Letras do Triângulo Mineiro à memória de José Mendonça, em 06 de agosto de 1968.

A Academia conferiu-me a honrosíssima incumbência de falar em seu nome na homenagem que hoje vamos tributar à memória de nosso saudoso confrade José Mendonça.

Inicialmente, a minha resposta a essa prova de distinção e de apreço teria de ser de uma constrangedora recusa, levando em conta o meu estado de saúde e o propósito, por outro lado, de não comprometer o brilho da solenidade.

Entretanto, o convite que me dirigiu a Academia foi vasado em termos de tal ordem que teria de recebê-lo como uma imposição indeclinável de seus membros.

Dizia o convite que, por decisão unânime dos acadêmicos, estava a meu cargo a saudação oficial a ser feita em nome da casa, já que eu era, no entender de todos, a pessoa mais credenciada para tanto, não só pela minha convivência com o ilustre extinto, seja no Fórum ou seja na Faculdade de Direito, como ainda pela estima e consideração que me dedica a família de José Mendonça.

Alem disso, eu teria de considerar certas ocorrências que se verificaram em fases culminantes de minha vida e em que tomou parte o homenageado de hoje, algumas das quais é-me grato recordar pela sua relevância nos arquivos da minha memória e no escaninho do meu reconhecimento. Trata-se de acontecimentos imperecíveis que o tempo não consegue apagar.

Quando, em dezembro de 59 fui honrado com a elevada confiança do Egrégio Tribunal de Justiça e do governo de Minas para representar a classe dos advogados naquele alto Colégio Judiciário, a qual eu pertenci quase 30 anos, foi meu amigo José Mendonça o orador no banquete que meus colegas e Juizes de Uberaba me ofereceram no Grande Hotel, nesta cidade.

Com que emoção, com que enlevo e com que reconhecimento recordo as palavras de bondade, de carinho e de ternura com as quais me sensibilizou o orador.

Quis José Mendonça, naquela oportunidade, recitar uma das composições poéticas da minha mocidade. Eram evocações de um passado distante quando amanhecia nos arroubos literários aquele que estava envelhecendo nas letras jurídicas, quase no fim, portanto, de sua vida de modesto, mas apaixonado cultor do Direito.

E o poeta de 20 anos, enamorado da cidade que um Deus generoso nos deu de presente, celebrava, em versos Alexandrinos, todo um passado heróico de lutas bravias, à custa das quais o índio, o português e o negro lançaram os alicerces de nossa Pátria.

E declamava o orador:

"Do Corcovado, olhando esse trecho do Atlântico,
lendário, milenar, evocador, romântico,
que começa na barra até sumir de vista,
sinto o Rio de volta aos campos de conquista,
ao passado que foi para sempre, à grandeza
de outras épocas, quando a gente portuguesa,
devassando a distãncia e vencendo as procelas,
Rumava para o sul dentro das caravelas ...

Vejo, ao longe, galeões, veleiros e fragatas,
Almirantes de antanho e impávidos piratas,
Surgindo, no horizonte, entre brumas remotas,
Quando o oceano era livre aos corsários e as frotas,
Ao comando real da dinastia ibérica,
Levavam para a Europa o ouro todo da América.

Sinto o ardor varonil dos guerreiros altivos,
Nos recontros mortais de europeus e nativos.
Contemplo o homem da terra e o colonizador
Lutando como irmãos e expulsando o invasor,
Entre tubas de guerras e rumor de tacapes:
- Olinda, Bom Jesus, Tabocas, Guararapes ...

Aabro, de par em par, as portas do passado,
para conter melhor este mundo encantado,
Terra de Santa Cruz, dentro do coração.
E, enquanto arde em redor o verão carioca,
A minh'alma enlevada essas cenas evoca,
Seguindo, passo a passo, a civilização,
Gloriosa, fulgurante, heróica, secular,
Que se exibe, lá em baixo, entre a montanha e o mar
- e a tarde tropical, de ouro e sangue, emoldura,
como se o Rio fosse uma grande gravura,
colorido de sol, aberto aos quatro ventos,
com seus parques, jardins, praias e monumentos.

E, vendo essa obra de arte, ao natural e ao vivo,
Partilho da emoção de um pintor primitivo
Que, inspirado de Deus e tocado de gênio,
Diante da sedução deste largo procênio,
Pintasse para a história esta tela divina,
Jóia continental da América Latina".

Esse retorno ao passado, através da palavra encantadora de José Mendonça, haveria, naquela hora, de comover-me, como me comoveu.

Era o Rio de Janeiro, a cidade mais linda do mundo, que surgia na minha lembrança com a beleza incomparável dos seus panoramas.

Era o Rio de Janeiro de outros tempos que eu revia, a cidade maravilhosa onde formei o meu espírito e de onde saí para a vida com o entusiasmo de um templário, ou daqueles lendários cavaleiros do rei Arthur que juraram em mãos da rainha Ginevra "cometer estranhas aventuras e defender o direito dos fracos contra os fortes".

Assim, o orador acordava em mim o que a minha vida, na sua sentimentalidade literária, teve de mais puro, de mais espontâneo, de mais transparente e de mais autêntico.

Era o poeta adormecido que, como a fênix da lenda, renascia das próprias cinzas.

Já mais tarde, era ainda meu inesquecível amigo que me convidava para ser, na solenidade inaugural, o orador oficial da academia que acabava de ser fundada.

Fecho os olhos e como que ainda vejo o meu grande amigo, dominando a reunião como um verdadeiro gigante, pela altura e pelo talento, por ocasião da abertura dos trabalhos.

Algum tempo depois, atendendo a convite de José Mendonça, numa ocasião em que eu já estava fugindo a situações emotivas, acedi em pronunciar uma conferência sobre a Poesia como Expressão Material da Beleza.

Além do mais e, sobretudo, trata-se de uma homenagem que se presta à memória de uma das mais altas expressões da intelectualidade regional, que se impôs por sua larga atividade mental à admiração, ao respeito e à estima de todos.

Com efeito, José Mendonça, na sua complexa personalidade, visitou, pela cultura que soube armazenar e com que enriqueceu o seu espírito, os departamentos mais atraentes do conhecimento humano.

Não foi apenas o aluno exemplar com que convivi, quer no Ginásio Diocesano, que cursamos juntos, quer na Faculdade de Direito do Rio, onde brilhou por sua devoção aos estudos, mas fez de sua vida um instrumento de trabalho e adquiriu, graças aos seus dotes de inteligência e de caráter, a posição de relevo que desfrutou até sua morte.

A esses atributos de inconfundível realce, era o homenageado jurista de largos méritos, publicista, professor de direito e advogado notável.

Por todos esses motivos ponderáveis, eu não tinha condições para recusar o convite que me foi feito que, por si só, era uma distinção que tanto me exaltava, colocando-me muito acima dos meus merecimentos.

Reconheço, porém, sem falsa modéstia, que não me sinto em condições de interpretar o pensamento da Academia, nesta hora de tão gratas e, ao mesmo tempo, paradoxalmente, de tão dolorosas recordações.

Além do mais, como já tive ensejo de acentuar, aqui mesmo na Academia a palavra é um instrumento difícil de ser usado.

A palavra - dizia Ivair Nogueira Itagiba - "muitas vezes não expressa com fidelidade o pensamento".

Em conceitos lapidários, de incomparável elegância verbal, Antonio Carvalho Neto expressava que essa importância expressional do verbo tem sido o tormento de quantos o utilizam como veiculo do pensamento. Enquanto o pensamento voeja, em revoada solta, pelos espaços infinitos da imaginação, a palavra arrasta-se no terra-a-terra das coisas comuns, incapaz de traduzir com exatidão, de retratar com fidelidade, de exprimir com clareza, o que apreende no subjetivismo da inteligência.

A palavra é um grilhão: subjuga o pensamento; é um eco: falseia na reprodução do pensado; é um sarcófago: traz no seu bojo, embalsamado, um pensamento morto; é um espelho: reflete a imagem furtando-lhe os relevos.

A frase empalidece o pensamento, é uma contrafação.

Enquanto aquele é dinâmico, esta é estática.

Comprimir o pensamento na palavra, embora essa palavra seja uma gaiola dourada, como a dos gênios, é sempre uma tarefa árdua, dolorosa e insatisfatória.

Foi por certo revoltado contra essa incapacidade vocabular, para pintar os quadros manificentes que se lhe desenhavam na imaginação, que Vargas Vila, exclamou indignado: "O vocábulo é o tirano universal". Nunca o que escrevemos representa com perfeição o que pensamos. Fica sempre aquém.

Entre o pensamento livre e indisciplinado da imaginação e o pensamento formalizado na palavra, medeia um abismo.

Toda a frase é uma capitulação do espírito e incapacidade tradutora dos caracteres lingüísticos.

Se a palavra, como acabei de dizer, é impotente para traduzir o pensamento, o que devo fazer neste instante de tão estranha vibração emocional, senão deixar o coração falar a linguagem universal dos sentimentos que todos os povos entendem.

Como definir este momento que não consegue se situar bem na escala sutilíssima das emoções.

E que a sensação que cada um de nós experimenta neste instante não chega a ser de dor, nem de tristeza.

É antes, um sentimento vago que os léxicos não registram bem, mas só os poetas, como intérpretes dos estados da alma e da beleza, definem.

É a saudade, meus amigos, "delicioso pungir de acerbo espinho".

É a "saudade, palavra doce,
Que traduz tanto amargor,
Saudade é como se fosse
Espinho cheirando a flor";

É a saudade, "gosto amargo dos infelizes", como diria Garrett.

É a saudade, "a presença dos ausentes".

Sim, presença constante de você, José Mendonça, que permanece junto de nós, junto dos seus entes queridos, junto de sua esposa amantíssima, junto de seus filhos, junto de seus colegas, junto de seus amigos e principalmente junto dos seus confrades, continuando a presidir em espírito as sessões da Academia, à qual você dedicou, na fase final de sua vida, o calor de seu entusiasmo, o vigor da sua inteligência e o esplendor da sua cultura.

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