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Homenagens Póstumas


Discurso de agradecimento à homenagem prestada pela Academia de Letras do Triângulo Mineiro à memória de José Mendonça, pronunciado por José Campos Mendonça, em 06 de agosto de 1968.

Volto a Uberaba, dois meses após a morte de meu pai, para aprender o que um grande poeta dissera, mas que só a vida veio a ensinar-me: - que nunca se volta.

As cidades, como os homens, têm muitas dimensões, e uma delas só se mede com o coração e o espírito.

Já não venho à mesma Uberaba, porque lhe falta a dimensão de um amor que dilatava meu coração, e cuja ausência o dilacera.

É outra a cidade a que venho e a que sempre virei, porque iluminada, doravante, aos olhos do meu espírito, pelo sinal deslumbrante da passagem de Deus, que consigo levou, para as alegrias do céu, a alma limpa e generosa de meu pai.

Esta cidade, sob tantos aspectos, central na minha existência, passa a ser, de agora em diante, um altar na minha vida.

Senhores Acadêmicos: a homenagem, que hoje prestam Vossas Excelências em memória de meu pai, tem para nós, seus familiares, um significado marcante e excepcional.

É a manifestação de respeito e saudade de homens devotados ao que constituía o ideal supremo e permanente de sua vida: - a cultura e elevação do espírito, o aprimoramento da inteligência.

Essa Academia, que ele com esforço e dedicação ajudou a criar, e para cujo desenvolvimento consagrou todo o seu entusiasmo, não era, para ele, apenas uma reunião de intelectuais que procurassem, periodicamente, momentos de devaneio e prazer espiritual.

Longe disso, a Academia de Letras do Triângulo Mineiro tinha, para seu primeiro e até então único Presidente, um sentido todo impessoal e superior: - o de uma entidade que, nesta abençoada região do Brasil Central, fosse um ponto de preservação e irradiação do que há de mais autêntico e expressivo na cultura local.

E quis Deus que, no convívio com vossas Excelências, pudesse ele ver realizada essa sua imensa e profunda aspiração.

Com efeito, pelo entusiasmo constante com que comentava e divulgava os trabalhos dos seus Pares, sentia-se o seu orgulho por essa Academia, e a certeza de que a organização com que tanto sonhara era uma realidade indisfarçável, uma força incontida, da qual todo o País, poderia esperar, como pode, as mais fecundas e promissoras realizações.

E como a amava, como dela se envaidecia!

Quadro dias antes de sua morte, teve ele a oportunidade de presidir aquela que seria sua derradeira reunião com Vossas Excelências.

Fomos então, seus familiares, testemunhas do ardor com que falou sobre os trabalhos realizados, da convicção com que antevia o brilho e a projeção cada vez maiores dessa Casa.

Dia de reunião da Academia, para ele, era uma renovada profissão de fé e esperança nos valores morais e intelectuais de Minas Gerais e do Brasil.

É por essa correspondência entre as realizações da Academia e os ideais de nosso pai, isto é, pelo fato de essa Casa ter sido a concretização de seus mais nobres anseios, que nós, seus familiares, vemos nesta homenagem o coroamento póstumo, a glorificação final de uma vida toda dedicada ao estudo, ao trabalho espiritual e a produção intelectual.

Excelentíssimos Senhores Professores Jacy de Assis e Edson Prata: sabemos do esforço, da boa vontade e do carinhoso empenho com que vossas Excelências promoveram esta reunião, e testemunhamos-lhes os nossos mais sinceros e enternecidos agradecimentos.

Desembargador Lauro Fontoura: honra-nos sobremaneira ter sido vossa Excelência - juiz probo e sábio, homem de letras emérito - o interprete do pensamento dos ilustres membros da Academia, nesta solene sessão.

Nenhuma das palavras proferidas por Vossa Excelência deixou de repercutir no mais fundo dos nossos corações.

Elas serão para nós, pelo resto de nossas vidas, fonte permanente de envaidecedor conforto.

Senhores Acadêmicos Santino Gomes de Matos, José Pereira Brasil e Augusto Afonso Neto: ouvimos, emocionados, o belíssimo poema e as orações arrebatadoras em que enalteceram a figura de nosso pai.

Nada mais podemos oferecer-lhes, em retribuição às suas palavras, que o nosso próprio coração.

O louvor ora rendido à memória de nosso pai, nós o relembraremos com a humildade que o caracterizava, com a gratidão que lhes ficamos a dever, Senhores Acadêmicos, e, também com o orgulho de o termos tido como fundador e chefe de nossa família.

Estendemos nossa gratidão a toda essa região do Brasil Central, pedindo vênia para simbolizá-la na cidade de Uberaba, na extremamente querida Uberaba de nosso pai, sobre a qual ele um dia escreveu:

"Uberaba!
Terra bendita da alvorada da minha vida; terra encantadora onde a infância se me decorreu feliz e deslumbrada; terra adorada onde tenho sonhado, amado e sofrido; terra das minhas horas de dor e das minhas horas de alegria; terra abençoada em cujo seio meu pai descansa; terra da minha mulher, terra dos meus filhos, terra dos meus irmãos; terra divina onde, como um favor de Deus, espero ter um recanto para o meu túmulo; terra da minha saudade, terra do meu amor e da minha ternura, terra da minha esperança!
És o meu entusiasmo, és a minha coragem, és a minha confiança, és a minha fé, és toda a minha fortuna!"

A fortuna de nosso pai, sua fé, sua confiança, sua coragem e seu entusiasmo eram a amizade e o respeito que lhe devotavam e continuam a devotar, como se vivo fosse, todos aqueles que, à semelhança de Vossas Excelências, fazem da vida uma contínua prestação de serviços à pátria e à humanidade.

Senhores Acadêmicos: em nome de minha mãe, no de meus irmãos e minha irmã, e no meu próprio, nossa imorredoura gratidão.

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