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Homenagens Póstumas


DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA MUNICIPALISTA DE LETRAS DE MINAS GERAIS
BELO HORIZONTE - 14/12/1974
De Frei Francisco Maria de Uberaba, capuchinho

"Quis a Providência que eu ouvisse o apelo de São Francisco de Assis, patrono desta Casa de Cultura e aqui viesse para o encontro fraternal desta hora, e para o serviço literário que incumbe a todos os acadêmicos. Antes de mais nada, meus amigos, louvo e exalto o irmão Francisco de Assis, poeta e artista, santo e líder, pois só a Ele e a Sua Ordem Religiosa cabem as honras e os elogios aos seus filhos espirituais. Transfiro então para Ele as palavras elogiosas da acadêmica Risoleta Maciel Brandão no discurso em que me saudou nessa tomada de posse na Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais.

O frade menor está a serviço do povo de Deus que hoje se reúne na Academia. O frade menor agradece a esta mesma Academia o carinho com que é recebido e bem guardado, no coração de cada um e no coração das letras que exaltam o espírito. Meus melhores agradecimentos ao sr. Presidente Alfredo Viana Góis. Agradecimentos também ao acadêmico Wilson Veado pelo trabalho que teve em examinar meus livros e dando assim mais empenho ao trabalho de Risoleta Maciel Brandão em propor-me para Membro desta Instituição de Cultura das Minas Gerais. A todos vocês, acadêmicos e amigos, meus melhores agradecimentos no espírito alegre de são Francisco, nosso pai comum, na santidade e nas artes, na religião e na literatura.

Que são Francisco de Assis guie hoje e sempre os passos destes devotados operários da cultura mineira, fazendo-os sempre humildes e caritativos como Ele o foi. Pois a cultura da inteligência realmente edifica, quando unida, a bondade de coração e a caridade sobrenatural com que Deus nos amou em S. Francisco.

Cada acadêmico tem seu Patrono.
O meu é Doutor José Mendonça.
Nasceu no dia 19 de março de 1904, em Uberaba, filho do Dr. Mário Mendonça Bueno de Azevedo e Tertuliana Cristina de Azevedo.
Desde pequeno teve grande pendor para as coisas da inteligência e da virtude, razão pela qual sempre teve lugar de nomeada na escola e na família. Obediente, estudioso e religioso: são suas notas desse tempo de meninice e juventude.
Casou-se com Maria Joaquina Cunha Campos (dona Maninha, ainda viva) e teve os seguintes filhos:
1. Dr. Mário Alexandre Campos Mendonça, procurador do Estado da Guanabara.
2. Dr. Jose Campos Mendonça, advogado da Light, no Rio de Janeiro.
3. Dr. Vicente de Paulo Campos Mendonça, advogado da Empresa Telefônica Brasileira, no Rio de Janeiro.

Após os estudos primários e secundários, enveredou pelos estudos superiores, matriculando-se na Faculdade de Direito da Universidade do Brasil, onde em 1926 concluiu brilhantemente seu curso.
No início de sua carreira advogou na cidade de Prata (Triângulo Mineiro), vindo depois para Uberaba, onde sempre viveu.

Na cidade, lecionou no Colégio N. Sra. das Dores, na Faculdade de Direito do Triângulo Mineiro, na Faculdade de Filosofia Santo Tomás de Aquino e na Escola Normal de Uberaba.
Foi fundador em 1962 e presidente até sua morte da Academia de Letras do Triangulo Mineiro, reunindo diversos intelectuais da região e criando destarte uma sociedade de cultura e pesquisa histórico-literária, que hoje progride muito bem sob a presidência do Dr. Edson Gonçalves Prata, grande admirador e discípulo de José Mendonça.
Pertenceu à Presidência da Ordem dos Advogados do Brasil, sub-secção de Uberaba, onde prestou relevantes serviços à classe. E pertenceu ainda a outras entidades culturais e assistenciais, como Rotary Club, Santa Casa de Misericórdia, etc.

Em plena atividade, como advogado, professor e jornalista, morreu em Uberaba, de mal súbito, no dia 4 de junho de 1968. Seu enterro foi muito concorrido e sua ausência até hoje é chorada pelas diversas camadas de pessoas que lhe eram amigas e devedoras de tantos favores.

Escreveu inúmeros artigos para jornais e três livros de geral aceitação: "A Prova Civil", "Ação Nacional" e "História de Uberaba".

O Homem
José Mendonça era um homem grande e um grande homem. Seu coração era do tamanho do seu próprio corpo. Alto e gordo, como numa crônica disse dele o jornalista uberabense Ataliba Guaritá Neto.
Quem conviveu com o Mestre, sabia-o bem. Transpirava bondade e distribuía otimismo, elevando, promovendo as pessoas quaisquer que fossem, operários, estudantes, advogados, escritores e administradores.
Se numa palavra pudéssemos resumir seu humanismo latente e sempre atuante, seria BONDADE. Foi bom e bastou-lhe isso para se realizar na comunidade a que serviu anos a fio. Num serviço sem ambições materiais, pois viveu modestamente, deixando aos filhos e amigos a melhor herança, a EDUCAÇÃO DA BONDADE.

O PROFESSOR
Ouvi diversos seus alunos, tanto nos colégios como nas faculdades, e os depoimentos são espontâneos e unânimes em enaltecer o caráter reto e elevado do Mestre que fazia do magistério um sacerdócio. Ser professor para ele era ser EDUCADOR, e, portanto, não havia obstáculos para dar mais uma aula, pronunciar uma conferência extra, corrigir até altas horas noturnas uma redação de aluno, falando, falando sempre com o entusiasmo e a força física que Deus lhe deu.
Além das matérias jurídicas, sua especialidade, também dominava muito bem o português e a literatura em geral. Suas aulas e anotações lingüísticas eram disputadas (e ainda o são) por alunos e curiosos que desejavam simplicidade e profundidade nas questões tratadas. Pode-se dizer dele, sem exagero: VIVEU PARA ENSINAR!

O JORNALISTA
Colaborador ferrenho da imprensa interiorana. Escrevia tão naturalmente como falava... Orador e escritor, nele uma só atividade constante. Consultando os números do jornal "Lavoura e Comércio", percebi eu a constância admirável de sua atuação com artigos sobre vários assuntos.

O RELIGIOSO
Nascendo em berço cristão, fez da tradição familiar religiosa - uma Escola de convicção para a vida. A sua cultura era eminentemente religiosa. Não deixava passar algum acontecimento ou festividade litúrgica sem uma palavra enaltecedora de sua religião-apostolado, tanto na escola como na imprensa. Suas dissertações litúrgicas e comentários morais eram obras que qualquer sacerdote poderia assinar tranqüilamente, ali estava a ortodoxia unida e prudência pastoral do apóstolo que se dirigia a um ambiente diverso e até difícil.
Sua religiosidade fazia especialmente respeitoso para com o sacerdote, o bispo, o Papa. Grande admirador das Ordens Religiosas Dominicana e Franciscana, tinha nos grandes santos fundadores DOMINGOS DE GUSMÃO e FRANCISCO DE ASSIS, os arautos ainda do Evangelho num mundo conturbado.

O justo JOSÉ MENDONÇA morreu como viveu, na paz.
Sua política era a do SERVIÇO; seu diálogo era o do AMOR; seu interesse era o da PROMOÇÃO ALTRUíSTICA; sua vida era um livro grande contando a história da sua BONDADE!

A bagagem literária de JOSÉ MENDONÇA é enorme e grande parte inédita.
Especialmente com relação a trabalhos históricos, de Uberaba e região.
Primou-se pela atividade de historiador.
Seu estilo literário é como sua vida, simplicidade e clareza. Frases curtas.
Pensamentos vibrantes de vida e de entusiasmo. Tudo lhe era importante. Em tudo via o aspecto positivo e benéfico. Retratando literariamente inúmeras figuras políticas, nunca explorou fraquezas de ninguém. Tão elevado era ele, moralmente, que via tudo elevado.
Linguagem chã com adjetivação rica. Conclusões incisivas. Não desperdiçava palavras. E ia escrevendo a medida do tempo oportuno e da inspiração atual. Foi um mestre na oratória e um artista da pena.
E no fundo da sua literatura, eis que se destaca a filosofia segura de vida. Disse ele sobre a religião:

"Afastados de Deus, do espírito, da fé, perdemos o sentido da ordem verdadeira das coisas, ficamos totalmente desorientados, sem atinar com o caminho a seguir. A ciência dissociada de Deus, do espírito, da fé é um campo estéril, míope. Preocupa-se muito com as coisas, mas escapa-se-lhe a única coisa necessária - a supremacia do ESPÍRITO, aquela que dá sentido e significação à existência humana. E assim, a única que pode garantir a unidade e a ordem".

JOSÉ MENDONÇA ainda vive:
1. na família exemplar e cristão que deixou;
2. nas obras literárias que guardamos e lemos;
3. na academia que ele fundou e fecundou;
4. nos exemplos de homem, de professor, de advogado, de jornalista, e sobretudo de pessoa religiosa. Por isso, o tomo como PATRONO ao tomar posse nesta egrégia casa de cultura mineira, e como patrono tê-lo-ei, pela vida afora, nas lutas dos livros e dos escritos.

POSSA portanto o exemplo de JOSÉ MENDONÇA enriquecer ainda mais a inteligência e a virtude desta ACADEMIA, que hoje recebe a visita de Uberaba.
A todos, muito obrigado, em nome da minha terra e do meu patrono."

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